RENAISSANCE act 1 | O 1º ato começa na pista de dança, com Beyoncé em êxtase absoluto pela vida

Após 6 anos de muita espera, finalmente temos uma obra nova por Beyoncé. Se o “Lemonade” tinha uma proposta política, empoderada e sombria, após alguns projetos como “Everything is Love” e o “The Gift”, em 2022 ela nos presenteia com o primeiro de três atos, celebrando a vida, beirando o escapismo, renovando o antigo e atualizando o novo. “RENAISSANCE” veio para nos fazer dançar de felicidade numa pista de dança reluzente, livres de qualquer pensamento ruim.

Em 2021 ela disse a Harper’s Bazaar: “Com todo o isolamento e injustiça do ano passado, acho que estamos todos prontos para fugir, viajar, amar e rir novamente. Sinto que um renascimento está surgindo e quero fazer parte dessa fuga de todas as maneiras possíveis.”

Leia a entrevista – Evolution Beyoncé by Harper’s Bazaar 2021

O disco trouxe algo novo. As primeiras 8 faixas fluem muito bem. Em I’AM THAT GIRL, Bey está muito bem resolvida e sugestiva quando canta “Por favor, os filhos da puta não vão me parar”, ela quer festejar e ninguém vai detê-la. O baixo embala reconfortantemente toda a canção até transicionar para COZY, que vai mudando de tom, num ritmo mais dançante, ela deixa um lembrete: é hora de dançar na aceitação de ser. Ela canta em metáforas divertidas enquanto cita as cores da bandeira LGBTQ.

Nesse projeto a comunidade queer viu alguns elementos familiares dos ballrooms dos anos 70/80, sendo inseridas com louvor em algumas faixas, como em ALIEN SUPERSTAR. A música começa com um homem implorando pra você se acalmar e não deixar a pista de dança. O vocal começa a ecoar em seguida, Bey está à vontade com esse estilo, e há uma interpolação de I’m Too Sexy, de Right Said Fred nessa faixa, que faz algo soar familiar. É uma música performática com uma produção impressionante.

CUFF IT vem em seguida mudando o tom para algo mais funk pop e acendendo o brilho das pistas de dança, a música tem um final propício para o começo de ENERGY com o rapper americano-jamaicano BEAM. A canção com menos de 2min parece uma pré-aquecida para a contagiante BREAK MY SOUL, o lead single celebra a vida e a feminilidade reduzindo o patriarcado a um mero expectador e ouvinte, é o single que fomentou toda a expectativa do lançamento e cumpriu bem sua missão.

CHURCH GIRL soa como o gospel dos tempos dourados e explode com um flow delicioso. VIRGO’S GROOVE é uma das faixa essenciais da obra. São 6 minutos de uma canção muito bem produzida, ali somos levados a uma pista de dança, guiados pelo vocal angelical da artista. Esse é o ponto alto. A voz. Essas combinações vocais perfeitamente ajustadas com a mudança de tom repentina em algumas canções, é de uma habilidade sem tamanho.

Grace Jones também está no disco. Jones é uma artista considerada um divisor de águas, tanto na música, quanto no cinema e na moda. Uma grande referência a cultura queer dos anos 80, e com certeza um nome de peso para o RENAISSANCE. MOVE é boa. Foi inserido alguns elementos dos seus primeiros projetos mais promissores, e muito do funk também, um dos gêneros que dão forma ao RENAISSANCE. Em AMERICAN HAS A PROBLEM ela embala com um sample de uma música de Kilo Ali, do ano 90 (American Has a Problem (Cocaine). Bey se compara com a cocaína e o efeito de alta dependência, não muito original mas ainda sim promissor.

Quando ela liberou a lista das canções que fariam parte do RENAISSANCE, todos acreditavam que essa seria mais uma era política e emblemática. AMERICAN HAS A PROBLEM foi uma das maiores causas de euforia, mas foi só uma isca para um batidão mega produzido e cheio de energia.

Um destaque também para a alegre PURE/HONEY, uma mistura de elementos modernos com elementos disco são base para os vocais aveludados da Bey, que te levam para uma festa no Ballroom, uma canção que poderia facilmente entrar na trilha sonora de POSE (Assim como ALIEN SUPERSTAR). Beyoncé está feroz, em êxtase de felicidade e munida de metáforas sorridentes enquanto te seduz. Tem muito dela ansiando o contato físico entre corpos.

Bey nunca se mostrou tão explícita, falando de sexo e corpos, como em THIQUE: “Ele pensou que estava me amando bem, eu disse a ele “Vá com mais força”. ou quando ela canta “Vadia, é melhor não perder essa bunda.” Nessa faixa o eu lírico fala com duas pessoas, sendo homem e mulher, o que passa a sensação de uma Beyoncé muito fluída e livre de amarras. Então ela finaliza com SUMMER RENAISSANCE, que flui em torno do hit de 77 da Donna Summer, I Feel Love.

O disco também é uma homenagem ao seu tio gay Johnny, que faleceu a muitas luas atrás depois de lutar contra AIDS. Seu tio foi o responsável por apresentar a Beyoncé, toda essa cultura que permeia RENAISSANCE. Ela cumpriu bem o propósito e com certeza elevou a homenagem para um outro patamar.

Bey fala sobre largar as imperfeições, esquecer os problemas e celebrar a vida. Isso não quer dizer que a mulher deixou seus ideais de lado. Mas agora ela pretende lutar comemorando. O disco tem o peso de super produtores como Hit-Boy, Mike Dean, The-Dream, Skrillex e Syd e alguns créditos em nome de Jay Z, BloodPop, Drake e outros pra citar alguns nesse post.

Essa artista hiper-disciplinada, elevou sua arte confortavelmente e nos serviu hinários de vitória que serão entoadas pelos próximos anos nas pistas de dança. O quão representativo esse disco soa, por toda cultura que foi inserida nele, pelos nomes mais promissores e subestimados do house e os sons funky. E isso perdura até o fim da obra. Não teve nenhum visual até agora (risos), mas acho que é isso, ela disse que não está ligando para imperfeições e suas ações podem representar alguma coisa. Só nos restar ouvir e apreciar esse show sonoro que é o RENAISSANCE.

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