Anne with an “E” trata assuntos como bullying de forma sutil e revolucionária

Ano passado, nossa querida Netflix nos presenteou com uma gama de séries maravilhosas, investindo cada vez mais nas adaptações de livros. E, entre elas a série Anne with na “E” se destacou pelo seu aspecto encantador de recriar a história de L. M. Montgomery, uma adaptação do clássico canadense Anne de Green Gables que ganha agora uma segunda temporada caprichada. Apesar do sucesso com a crítica conquistada com a primeira temporada, ainda não recebeu a atenção que merece com o público. Porém, a segunda temporada promete fazer a diferença.

A história gira em torno da pequena Anne Shirley (Amybeth McNulty), que após 13 anos sofrendo em abrigos e orfanatos, é adotada por engano por dois irmãos solteirões fazendeiros em Green Gables, Avonlea. Enquanto a primeira temporada trata a adaptação de Anne em sua nova casa, com novas tarefas e a realidade de finalmente ter uma família, agora, na segunda temporada o tema principal é o amadurecimento de Anne em meio a uma cidade simples e humilde, incluindo assuntos como união, autoestima, questionamentos morais sobre a sociedade da época e a dificuldade do “ser diferente”.

“Não é errado ser diferente. […] Acho que significa ser ímpar e extraordinário.” Anne cita frases memoráveis ao longo de todos os episódios, seja recitando poemas ou até mesmo em suas impressões sobre a vida citadas entre palavras difíceis e um vocabulário refinado. Ela encanta o telespectador a cada cena com seu amor à vida e ás coisas simples, distribuindo empatia e compaixão por onde passa. Os episódios se misturam entre drama e fantasia com uma pegada de aventura, sempre com muitas referências literárias da época na presença de uma narrativa encantadora que nos traz discussões de empoderamento da protagonista. É importante observar que a segunda temporada manteve a mesma qualidade estética dos planos e cores utilizados na série, que conseguem transformar as cenas mais simples em extraordinárias.

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Outro destaque dessa temporada é o roteiro, agora escrito apenas por mulheres sob o comando de Moira Walley-Beckett, o que reforça o protagonismo feminino da série acima de questionamentos sobre o papel da mulher nas relações sociais ainda durante o século XIX. Para uma época tão conservadora e retrógada na zona rural do Canadá, é de se questionar sobre aonde estavam as mentes revolucionárias, aqueles que teriam coragem para questionar valores e imposições sociais num período de tanta efervescência cultural. E, o que podemos ter certeza é que desde sempre já existiam os revolucionários, aqueles que seriam capazes de pensar na contramão e enfrentar a sociedade com questionamentos sobre valores culturais. E é aí que a personagem Anne faz a diferença: introduzindo assuntos como feminismo, preconceito, bullying e aceitação num contexto que esses assuntos ainda não eram colocados em pauta, sendo discutido cada um deles com o olhar doce e inocente da protagonista que se questiona de cada detalhe da sua realidade. O principal foco da série Original Netflix é desmistificar as crenças de um conformismo cultural no início do século XIX, mostrando um novo olhar sobre a realidade de forma sutil e encantadora.

Além de toda questão revolucionária, a nova temporada nos trouxe aspectos ainda não explorados antes, como mudanças visíveis no comportamento dos personagens, dessa vez focando nos momentos de fraqueza que os assombram tanto no passado quanto presente. Anne, como protagonista, é o principal alvo desses momentos, seja com flashbacks retratando o sofrimento da menina no orfanato ou situações que retratam a realidade de encarar o bullying por ser diferente e também envolvendo questões sobre autoestima e o esforço para ser “aceita”. A segunda temporada trás um foco maior nos personagens secundários, chegando até a introduzir novos personagens com uma presença já ativa na série, que acompanham Anne em sua trajetória sempre contando com ideias excêntricas sobre como contar histórias fazendo a diferença na realidade.

Avonlea é uma região que ainda vivia na escuridão de valores culturais, e Anne foi apenas a primeira faísca da maravilhosa iluminação que essa pequena cidade está prestes a receber. Uma vez que Anne é aceita naquela comunidade, tudo passa a acompanha-la, mesmo que de forma gradual, em rumo a novas descobertas e novas formas de ver o mundo. E é onde a segunda temporada nos leva: a uma viagem contra as cegas tradições culturais. Anne with an “E” é uma série de época retratada de forma atual, recheada de críticas e criatividade, sem dúvidas um grande presente que a Netflix preparou com carinho.

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